Tromso. Já ouviu falar? É uma ilha que fica na Noruega, 1200km ao norte da capital Oslo. Tem uma população de 65.000 habitantes e fica 350 km ao norte do círculo polar ártico, portanto é literalmente no fim do mundo. Mas porque eu estou contando isto? Teria eu me tornado guia turístico? Ou estou fazendo propaganda de algum programa no national geographic? Nada disso. Esse é apenas o cenário da minha mais recente meia maratona.
A latitude é norte 70. Isso é tão ao norte, que a incidência de sol varia bruscamente durante o ano. No inverno, a luz do sol não dá as caras por 2 meses ( entre novembro e janeiro), tornando-se um dos melhores lugares do mundo para se observar a aurora boreal. Para compensar, no verão durante 2 meses ( entre junho e agosto) o sol não se põe. Os noruegueses aproveitaram a adversidade climática e criaram o marketing - Midnight Sun Marathon - Maratona do sol da meia noite.
A corrida larga das 10:30........da noite. O horário é estranho, mas faz sentido. Como a maior parte dos corredores leva mais de uma hora e meia para para percorrer os 21 km, largando neste horário vai se chegar por volta da meia noite ou depois.
A meia maratona é a prova com maior número de participantes ( Tem também a maratona, uma prova de 10 km e uma mini maratona de 4 km), mas mesmo assim é bem pequena comparada as outras provas que costumo correr. O percurso é bem simples: Como a cidade é pequena, sai em direção ao aeroporto, que é do outro lado da cidade e depois volta para cidade.
A largada acontece com tempo nublado e temperatura de 13 C. Para os noruegueses e escandinavos, a julgar pela roupa que vestiam, um calor infernal. Para mim, o clima ideal para correr.
Com 2 km de prova, por ironia, começa a chover na maratona do sol da meia noite. Era uma chuva fina e constante que não atrapalhava nada, na verdade era até boa para refrescar. Eu tinha imaginado que depois de 2 ou 3 km, quando saíssemos do perímetro urbano, não haveria ninguém nas ruas e seria uma corrida muito solitária. Porém, para minha surpresa, havia várias casas com muitas pessoas reunidas e torcendo, além de pequenos grupos com 10 a 15 pessoas na rua a cada 800 metros. Pode parecer pouco, mas se considerar que é sábado, são 11 horas da "noite" e está chovendo, acho que era uma multidão.
Vou bem tranquilo até o km 8. Lá aparece uma fisgada na coxa direita que já tinha aparecido em um treino a uns 10 dias atrás. O folêgo está sobrando, a perna está faltando. Resolvo ser conservador e reduzo um pouco o ritmo, para poupar um pouco as pernas. Vou no meu ritmo reduzido, pensando em completar um km de cada vez. A chuva aperta um pouco e o incomodo na perna aos poucos vai passando e eu vou lentamente voltando para o meu ritmo.
Quando faltam 5 km, a dor já não incomoda mais. Olho para o relógio. Faço umas contas e percebo que é díficil, porém possível buscar o tempo de 1:40. Para isso, preciso tirar praticamente 2 minutos, o que significa correr 25 segundos mais rápido por km. O problema maior dessas aceleradas é saber se vai ter gás para chegar no final. Decido por um aumento gradual de velocidade, assim fica mais fácil controlar o ritmo apesar de ter que acelerar mais ainda no final. Acelero para queimar os 2 minutos.
Quando faltam 2 km para o final, a chuva para. E eu continuo acelerando. O último km é uma grande festa, com muita gente na rua, um bom estímulo para um sprint final. Cruzo a linha de chegada depois da meia noite....e com sol. Mas e o tempo? Consegui vencer os 2 minutos?
Venho tão concentrado no final, que esqueço de parar o cronômetro e só lembro quando estou já estou fazendo alongamento e ele já marca 1 hora e 46. Só resta aguardar o resultado oficial da prova que sai na manhã seguinte.
No dia seguinte, vou na internet e lá estão os resultados. Coloco o meu nome e faço um search. Aparece o meu tempo - 1:40:07. Por 7 segundos ( na verdade 8) não consegui fazer o sub 1:40,(muito longe – ainda- do meu recorde pessoal de 1:33:34 em Atlantic City em 2008) . Eu até poderia ficar chateado por ter corrido tanto e ter faltado tão pouco. Mas para mim isso é combustível. É o que nos faz continuar correndo. É o estímulo para treinar mais, e voltar a ser competitivo.
Tromso com certeza entra para o hall das provas mais exóticas que já corri. Não foi a maior prova mas com certeza uma das mais alegres e diferente . Volto para Oslo com a sensação de mais uma conquista atingida e principalmente a vontade de continuar correndo. Mais rápido e competitivo.
Keep running e até a próxima, em qualquer parte de mundo
Todo fim de ano é a mesma rotina: escolhe prova para correr, começa o treinamento, aumenta o volume de treino, depois aumenta a velocidade, passa pela fase de polimento até chegar na prova alvo do ano. Com uma semana de férias em março, o ciclo de treinamento começou no final de dezembro. Desta vez escolhi usar a mesma planilha que usei em Osaka no ano passado, que tinha comprado na Internet por 10 dólares. É bem simples mas para o tempo pretendido da para o gasto. Mas o problema não é a prova, ou a planilha: o problema é o treino. Essa planilha tem algo como 55 treinos em 12 semanas. No ano passado perdi apenas 2 desses trein...
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