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Longão na Aspire

Vamos começar com a definição: O que é um longão? Bom, para mim, corrida “normal” tem 10 KM. Mais do que isso, é longão. Mas como correr 11 k não faz parte de muitas planilhas, considero  longão corridas de 12KM ou mais. Normalmente a distância do longão vai até 16 ou 18 Km durante os treinos de meia maratona.

Porém, no RLRF, com certa frequência, a distância é maior do que isso. Confesso que, mesmo após ler o livro, não sei ainda qual o objetivo de ter distâncias tão parecidas ou por vezes até maiores que a que se pretende correr. Mas segui o treinamento à risca por um ciclo (16 semanas) e meus tempos baixaram. Desisisti de tentar questionar ou achar o motivo para tais treinos. Apenas executo, procurando manter o pace determinado.

Normalmente dou preferência por correr os treinos longos fora de Doha. Isso por que Doha não possui lugares muito atrativos para correr. Como no longão tem uma hora ou mais, é bom estar em algum lugar “estimulante”, e de preferência com temperatura agradável. Por isso, determino minha planilha baseado na minha escala. Basicamente vejo os treinos que pretendo fazer durante a semana e vejo aonde vou estar cada dia. E assim determino aonde vou fazer cada tipo de treino.

Mas esta semana,  em uma combinação de de folgas e stby, estaria a semana inteira em Doha. Fui ver os treinos que a planilha reservava para a semana. Lá estava um longão ( o maior de todos) de 24 KM.  Baseado na minha definição, se 12 KM é longão, 24 KM é longaço! Dificilmente corro distâncias maiores que  os 21 KM da meia maratona.  No ano passado por exemplo, corri a distância maior que 21 KM apenas uma vez ( 22 KM, no Rio durante o primeiro ciclo do RLRF). Na semana que teria esse treino de 24 KM, estava em Porto Alegre e não encontrei um local ideal para correr tanto.

Uma das belezas da corrida é o desenvolvimento da capacidade de lidar com adversidades. Tem dias que não dormimos direito. Outros a temperatura externa está quente demais ( ou frio demais). No meu caso tem ainda a mudança de fuso horário. E as vezes pode chover. E o que eu faço para vencer as adversidades?  Apenas me comprometo à ir ao treino e fazer o melhor que eu posso naquele dia, com aquela condição.

E foi isso que fiz em Doha. Com o final do inverno e a temperatura já passando da caso dos 35 C durante o dia, a solução é treinar bem cedo, no nascer do sol, aonde ainda se tem agradáveis 23C. Acordei antes do nascer do sol e sai de casa com o dia raiando. Cheguei na Aspire um pouco depois das 6 da manhã. Aquecimento “padrão”, um tempinho para o GPS se achar e vamos para o treino.
A Aspire é um belo complexo esportivo, que tem um track de corrida na sua volta. A volta completa são 5 KM. Se ao invés de completar a volta entrar no Aspire park, se tem mais 5 KM, onde uma volta complete de Aspire + Aspire Park serão bons 10 KM. 2 voltas dessas e mais uma volta apenas na Aspire era o meu planejamento de corrida.

Consegui encaixar o ritmo logo no primeiro KM. O objetivo era manter um pace entre 4:55 e 5:10. O primeiro KM foi em 5:02. A primeira volta foi relativamente fácil. Primeiro por ser uma distância que percorro normalmente. Depois por estar mantendo um pace mais lento que o de costume. Por incrível que possa parecer, as vezes manter um ritmo mais lento não é tarefa tão fácil. Mas neste dia, a primeira volta foi bem tranquila.

Iniciei a segunda volta no espírito de “ 1 KM por vez”. Fui pensando apenas no km que estava correndo e não na quantidade total de km de deveria percorrer. Quando sai do Aspire park, com aproximadamente 17 KM, comecei a pensar em completar aquela segunda volta ( 20 KM). Completei a segunda volta me sentindo muito bem. Ritmo constante. Fôlego sobrando. Pernas OK. Apesar do objetivo principal dos treinos longos ser a regularidade, acelerei um pouco nos km finais. Isso porque estava me sentido bem  e a vaidade de dizer para si mesmo que depois de 21 KM percorridos ainda se tem capacidade de se acelerar é muito bom.

Acelerei por 1 km, depois voltei ao normal no seguinte e depois acelerei de novo. E nessa brincadeira de mudar o ritmo, mal senti o km 24 e consequentemente o final do treino chegar. Terminei o treino, encontrei um lugar ao lado do campo de futebol para me alongar. Terminei meu alongamento, peguei o carro e voltei para casa. O maior longo previsto na planilha estava concluído. E o melhor, com relativa facilidade.
Doha não é o melhor lugar do mundo para se treinar. Mas se considerar esse treino longo na Aspire, o ritmo, a distância percorrida ( maior que o normal), e a condição climática geral, realmente não tenho do que reclamar. O melhor do treino, além da relativa facilidade, foi  descobrir a possibilidade de fazer um longaço em um lugar que  que aparentemente não seria adequado para isso. Tirar sempre o melhor de cada situação. Aprender sempre com as adversidades.  Regras que valem não apenas para a corrida mas para tudo que se faz na vida.


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