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Meia Maratona de Budapeste

90 minutos. Esse número não sai da minha cabeça.Vencer os 21 km em 5400 segundos, ou se preferir num ritmo de 4:17 min/km. Essa era a minha pretensão de tempo para a meia maratona. Não entende o que isso quer dizer? Isso quer dizer ser rápido, muito rápido. Para se ter uma ideia , em 2013 nos EUA apenas 4% dos corredores terminaram uma meia maratona abaixo de 1 hora e 30 minutos. E olha que os americanos tem fama fama de ter bons corredores. Continua sem entender o tamanho da encrenca? Então imagina subir em uma esteira e se manter por 90 minutos com velocidade de 14 Km/h.  É "só"isso.

O local escolhido desta vez foi Budapeste. Começo de primavera, a temperatura está perfeita para correr. Por volta dos 5 graus de manhã cedo, chegando aos 10 C as 9:30 ( horário da largada) e 15 C em torno do meio dia.

Agora, aula de geografia. Budapeste são 2 cidades: Buda e Peste. Buda fica na costa oeste e Peste na costa leste. Entre as cidades passa o rio Danúbio. Ao norte existe uma ilha entre as 2 cidades, que se chama Margareth Island. O percurso da prova começa na Margareth Island, cruzando o belo parque que tem nesta ilha. Atravessa a ponte Margid Hid, em direção a Buda. Então continua na direção sul, na margem do rio Danúbio. Por volta do km 10, cruza a ponte Szabadság Hid e inicia a volta, também margeando o Danúbio, mas desta vez pela margem de Peste. Nos 2 Km finais volta a entrar na Margareth Island e termina no mesmo local que começou.

Me posiciono bem a frente para largada. Minha ideia, baseada na minha última meia maratona ( RAK em fevereiro de 2014 - com recorde!!) é manter um ritmo constante a prova inteira. Começo a prova correndo com corredores mais rápidos do que eu, e por isso completo os 2 primeiros km em um ritmo bem mais rápido do que o pretendido ( algo como 4 min/km). Sei que eu não posso manter um ritmo tão forte, então tenho que entrar no meu ritmo o quanto antes.

Nos km seguintes consigo encaixar bem o meu ritmo. Sei que passo por umas bandas de música. também sei que a paisagem em volta é charmosa, com várias construções belíssimas. Mas não estou prestando muita atenção nisto. Um dos problemas ( talvez o maior deles, na minha opinião) de correr no seu limite é que você tem que se concentrar em você e acaba perdendo o que está na sua volta. É algo mais ou menos assim: asfalto-asfalto- uma olhada no relógio para ver como está o ritmo - asfalto- asfalto - a postura está correta? - asfalto- asfalto - e a respiração está alta?- asfalto-asfalto- e agora como está o ritmo?
E desta forma passo o primeiro terço (7 KM) da prova. Meu ritmo está constante, mas a prova é dura, pois apesar do terreno ser aparentemente plano existem aclives e declives, que são leves ( pouca inclinação) porém longos.Esse tipo de terreno dificulta a manutenção do ritmo. Começo a sentir uma dormência no pé esquerdo. Absolutamente normal, já que estou correndo numa velocidade levemente desconfortável. Isso já aconteceu diversas vezes em treinos, então eu sei que é ruim, mas passa. Continuo focado na corrida.
Pouco antes de cruzar a ponte Szabadsag Hid para o lado de Peste, passo pela marca dos 10 km. Um bom momento para se avaliar como se está na prova: tempo : 41:54. perfeitamente dentro do previsto. Dor : nenhuma. A dormência do pé já passou ( eu sabia!!) Cansaço: Um pouco maior do que o previsto, mas ainda aceitável. Ainda estou na briga do sub 1:30. É só continuar assim que dá. ( falar é fácil, agora, vai fazer...)


No lado de Peste o terreno é mais plano, e então melhor para mim. Apesar disso, depois do km 13 sinto que estou tendo que fazer bem mais força para manter o mesmo ritmo. E ainda tem mais 8 km pela frente. Nessas horas, nada melhor do que o back to the basics - penso: Um km de cada vez. E assim vou mantendo o ritmo e os km vão ficando para trás.

Km 16. Aqui começa a corrida. E a matemática. Corri em um ritmo muito forte até aqui e tenho um lastro de 30 segundos devido aqueles 2 primeiros km em ritmo alucinante. Faltam 5 km. E as pernas começam a faltar também. Se eu reduzir  o ritmo em 10 segundos por km nos próximos 3 km e voltar ao ritmo original nos 2 últimos km, consigo atingir o objetivo de sub 1:30. Normalmente o último km é bem rápido, pois você vê a chegada, tem um monte de gente torcendo e você sabe que não precisa economizar mais nada. O grande problema aqui é reduzir demais e depois não conseguir recuperar o tempo perdido. É arriscado, mas tem que se tentar.

Tento reduzir o mínimo possível, para ficar levemente confortável. Ainda assim, o ritmo cai um pouco mais do que eu gostaria. Acelero novamente, consigo entrar no ritmo, este porém não é confortável para se manter por 3 km. E nessa briga para achar a equação ideal entre conforto e cansaço, completo o km 19.
Só faltam 2 km agora. Tinha planejado acelerar a partir daqui, mas  o km 20 é particularmente difícil, pois boa parte dele é na ponte Margit Hid, em subida, voltando para a Margareth Island. Faço força. Todo treinamento está sendo colocado à prova agora. Consigo completar o km 20 em 4:14 min/km.


Entro no último km. Aqui eu tenho certeza que vou conseguir um tempo abaixo de 1:30. Como eu tinha previsto, apesar de todo cansaço, é um km muito rápido. Além de toda a festa na chegada, você simplesmente sabe que pode dar tudo. Completo a prova em 1:29:28.

Cheguei!! E dentro do objetivo de correr abaixo de 1 hora e 30 minutos!!! Não foi fácil.Não só a prova, mas todo o treinamento para atingir essa marca. Normalmente quando corro, quero ser melhor que eu mesmo, quero me superar. E isso não significa ser necessariamente mais rápido. Me sentir melhor, mais concentrado, mais feliz. Esse é o objetivo. Mas dessa vez tinha um adversário concreto: o tempo. Vencer o relógio, correr com mais técnica, com mais precisão.

Depois de Budapeste fui para Berlin, iniciar aquela rehidratação à base de cerveja (Verdade… Isso é científico, não fui eu que inventei). Chegando lá,  lembrei da minha única maratona, no longiquo ano de 2005, o que  me fez pensar: Agora que já corri uma meia maratona abaixo de 1:30, será que não está na hora de voltar a pensar em correr maratonas?

E com essa pergunta no ar, fico por aqui . Até a próxima meia maratona ( ou será uma maratona?)

Beijos e Keep running

Comentários

Unknown disse…
Muito bom, Nando, cada vez melhor.

Parabéns!
Unknown disse…
É assim que se faz!

Parabéns!

Beijos.

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