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O dia em que quebrei



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Quebrar. Corredores conhecem o termo e não gostam dele. Para os não corredores uma rápida explicação: Quebrar significa perder o ritmo. Não  conseguir mais manter a mesma velocidade. De uma forma simplista isto é quebrar. O gráfico do fim do post mostra bem essa situação.

Talvez um dos motivos pelo qual treinamos seja evitar a quebra. Funciona mais ou menos assim: Você sai para um treino e coloca um ritmo forte que você imagine que aguente manter por uma hora. Se com 45 minutos de treino você não aguentar manter a mesma velocidade, você quebrou. Logo, aquela velocidade estava muito forte para você. Outros fatores como o sono, a alimentação, o horário e a temperature podem influenciar no processo. Então você analisa o que pode ter dado errado e corrige no próximo treino similar a este. Assim funciona a evolução do treinamento.

Porque tanta historinha sobre a quebra? Como eu citei no ultimo texto, fiz 3 treinos em Miami no mês de agosto, sendo que no último desses treinos eu, depois de vários anos sem saber o que era isso, quebrei.  Vou tentar explicar como me senti durante este fatídico treino.

Miami. 6:30 da manhã. Já estava acordado fazia tempo. As 8 horas de fuso horário a menos fazem que se acorde muito cedo, algo como 2 ou 3 da manhã. Mas isso não chega a ser um problema, pois já faz parte da rotina desse tipo de voo. A alimentação no dia anterior não tinha sido a melhor do mundo pois nas 15 horas dentro do avião evito ao máximo comer a comida do avião e acabo me limitando a uma salada e pequenos snacks. Porém outra vez, nada que saia da rotina. Miami estava particularmente quente. Os 2 treinos anteriores na cidade já havia sentido muito o calor, porém neste dia a sensação era de que estava mais úmido.

O treino eram 14 KM em um ritmo confortavelmente forte. Isso no meu treino atual significa 4:41 min/km. O primeiro treino do mês em Miami foram 12 KM neste mesmo ritmo. Naquela ocasião, consegui correr a primeira metade com um pace cerca de 3 segundos mais rápido que o previsto e tive essa “gordura”para queimar na segunda metade. Apesar de cansativo, funcionou. Resolvi que adotaria a mesma técnica, com uma pequena diferença: Não olhar as parciais do GPS até a metade. As vezes faço isso, corro durante um tempo e antes de olhar para o GPS tento “adivinhar”o pace que estou mantendo. Essa técnica é algo que faço para não ficar apenas na dependência do Garmin e também poder usar um pouco a sensação de esforço.

Depois de 6 KM, imaginei estar em um ritmo 5 ou 6 segundos mais rápido do que o previsto. Olhei para o Garmin e então veio a decepção: Estava naquele momento exatamente no  ritmo que pretendia manter. 5 segundos por km pode parecer pouco, mas na verdade o problema maior era psicológico. Psicológico? Sim. Eu estava fazendo mais força do que eu acreditava ser necessária  justamente para ter uma reserva na segunda metade. Então de repente não apenas não tinha mais  aquela reserva, como a velocidade , que neste momento era muito forte para mim ,era a mesma  que teria que ser mantida durante toda a segunda metade. Neste momento a cabeça falou – “não vai dar” e depois de muitos anos sem sentir essa sensação eu simplesmente parei.

Parei  em uma das pontes, parei o cronômetro e fiquei um 2 minutos contemplando o mar e pensando no que deveria fazer. O primeiro pensamento foi simplesmente voltar andando  e dar o treino por acabado. Depois pensei que poderia voltar correndo no ritmo que fosse possível mas sem entrar nas ilhas nem indo até o parque atrás do hotel para completer os 14 KM. Se fizesse isso, o treino terminaria com aproximadamente 10 KM. Finalmente pensei que poderia tirar algum proveito desse treino. Se eu fizesse o programado apenas com uma velocidade mais baixa, seria um grande incentivo mental, principalmente por ter que passer na frente do hotel quando faltassem 2 km. E também para não dar a sensação de ter abortado um treino por um problema psicológico e não físico.

Plano retraçado e voltei a correr. Esse “retorno” me mostrou a importância da mente na corrida. Tentei continuar correndo forte, porém aquele ritmo que vinha mantendo de 4:41 agora era quase 1 minuto por km mais lentos. Pior: Estava fazendo força para manter esse ritmo. Pior ainda: conseguia manter o ritmo por uns 800M e depois tinha que andar um pouco. Isso tudo sem nenhum problema físico e não tendo percorrido nem 10 KM.

Quando atingi 10 KM, estava contornando uma das ilhas e então começou a chover. Não era uma chuvinha à toa não, era nível dilúvio mesmo. Me animei, dei uns gritos para mim mesmo ( algo que não faço nunca) tentei  voltar o foco na corrida. O problema neste momento era que a quantidade de água era tão grande que deixou meus tênis encharcados e pesados. Ainda assim continuei na minha luta para completar algo que parecia tão banal e neste momento estava extremamente difícil.

Quando passei na frente do hotel com 12 KM, a força da chuva tinha cedido um pouco, mas ainda chovia. Neste momento não tive nem tentação de parar, na verdade estava acelerando. Queria realmente terminar o treino que tinha me proposto a fazer inicialmente, ainda que com um tempo bem maior.  Continue tentando acelerar e terminei os 14 KM com um tempo de 1:12:37.

Olhando o treino pelo cronômetro, o treino foi decepcionante perto do que havia sido previsto. Entretanto, foi um treino de muitas lições. Vi como se quebra. Vi como é difícil retomar o foco depois de quebrar. Vi que após retornar a correr se precisa de uma força mental muito maior para se correr muito mais lento. Resumindo, foi um belo aprendizado.
Analisando posteriormente dentre os fatores que levaram a quebra podem estar alguns que já estou habituado como falta de sono, má alimentação , fadiga. Porém o maior fator contribuinte acredito que tenha sido a temperatura/ umidade. Realmente estava tão úmido e abafado que acabou chovendo forte. Manter uma corrida em alta intensidade nestas condições climáticas não é fácil além de ser perigoso.

Quebrar não é bom. Porém, devemos tirar  boas lições mesmo das piores situações. E isso não vale só para a corrida, vale para toda a vida.  Terminei este treino esgotado fisicamente. Porém me senti mais forte mentalmente por ter conseguido de alguma superar as adversidades do treino e ter completado a meta prevista. Tentar melhorar a cada dia, seja física ou psicologicamente, essa é a essência por trás da corrida.

Aqui as parciais de tempo para se ter uma idéia de diferença entre a primeira e a segunda metade do treino;




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