Essa foi uma daquelas que acontecem por acaso: Uns dias de folga, uma ideia uma consulta na internet para ver provas possíveis de se inscrever na última hora e pronto: Lá estava eu em Enschede. Continuo com o hábito de arrumar provas em lugares pouco convencionais. Enschede fica na Holanda mas a apenas 10 km da fronteira com a Alemanha. Fica a 150 km oeste de Amsterdam e a mesma distância a norte de Dusseldorf. É uma pequena e simpática cidade de 200 mil habitantes com uma grande vantagem: a possibilidade de navegar nas culinárias e cervejas holandesa, alemã e belga. Não sei se eu estava bem preparado para a corrida, porém bem alimentado e hidratado isso com certeza eu estava.
A largada aconteceu às 12:45 da tarde. Apesar do horário pouco convencional, não chega a ser um problema visto que a temperatura neste horário era de 7 graus. Confesso que cheguei na largada sem muita empolgação e também sem saber o porque de não estar animado. Porém antes de completar o primeiro km descobri o que faltava: objetivo.
Sempre corro com algum objetivo, qualquer que seja. Nesta prova, cheguei sem nenhum. Somado à isso, nos últimos 2 meses reduzi um pouco os treinos, numa mistura de férias, aumento do calor em Doha e falta de alguma prova em vista. Mas a corrida cria um grande poder de adaptação, e foi exatamente o que eu fiz: como a prova tinha marcadores de ritmo ( corredores que mantém ritmo determinado. Quem quer terminar a prova naquele tempo " basta" acompanhar aquele marcador) resolvi acompanhar um deles. O marcador de 1:35, que era identificado por um balão vermelho, estava uns 200metros na minha frente e o de 1:40 em algum lugar para lá para trás. Pensei em manter contato visual com o de 1:35, enquanto fosse possível e quando o perdesse de vista tentaria acompanhar o marcador de 1:40.
A prova passa logo no inicio pelo centro da cidade. Depois se afasta um pouco e segue em direção aos arredores de Enschede. Apesar de ser arredores é uma área muito agradável com alguns parques e bastante verde. Vou no meu ritmo confortável e vendo o balão vermelho distanciar-se lentamente. Mas não tem problema. Estou curtindo o visual. Considerando o tamanho da cidade, é impressionante a quantidade de gente na rua. Passo o km 10 em pouco menos de 45 minutos. Mantendo esse ritmo completaria em 1:35. É mais ou menos nessa hora que começa a chover. Normal: correr na Holanda sem chuva não é correr na Holanda.
No km 12 iniciava uma longa reta até um ponto de retorno aonde se voltava pela mesma reta.Quando vi o percurso da prova, pensei que essa reta teria uns 2 km. Na verdade tinha 4km. O lado ruim é que enquanto você não vê o retorno, você só pensa que vai ter que voltar aquilo tudo depois. O lado bom é que conseguia manter o balão vermelho a vista. Não que eu estivesse pensando em chegar nele, mas pelo menos sabia que o outro balão também não chegaria em mim enquanto mantivesse aquela distância.
No km 16 chegou finalmente o tal do retorno. Agora era só voltar naquela reta de 4 km, correr mais 1 dentro da cidade e estava pronto. Nesse momento tive uma conversa comigo mesmo. Foi mais ou menos assim:
- Oi, e aí tudo bem? O que está fazendo por aqui?
- To correndo!! Meia Maratona!!
- Correndo? Mas você não está fazendo força
. -É. Meu ritmo está bom. O balão vermelho está ali na frente e mantendo esse ritmo fecho em 1:35 ou algo por aí
. - Ok. Mas de novo.... você não está fazendo força. E não adianta tentar me enganar porque eu sei que está sobrando fôlego e.....
- Pois é, o fôlego está bom mas tá faltando perna.....muito tempo sem treinar velocidade.
- Frescura. Só forçar um pouquinho na fim. Faz o seguinte: vai alcançar o balão vermelho. Afinal de contas tu veio aqui para correr ou para beber cerveja?
- Ah! Beber cerveja claro. Mas já que sobrou um tempinho resolvi correr.
- Então!! Quanto mais cedo acabar, mais cedo chega no bar
. - Opa!!! O incentivo que falatava!......acelerando atrás do balão vermelho. Te encontro daqui a pouco no bar.... Valeu.
E assim decidi acelerar progressivamente o ritmo. Nos 2 km seguintes vi o balão vermelho se aproximar relativamente rápido. Fiquei com receio de estar empolgado demais ( aquela empolgação que faltou no começo estava sobrando aqui) e acabar faltando fôlego no fim ( nessa altura as pernas já queriam parar). Entre o km 18 e 19, quando estava bem perto do balão vermelho ele simplesmente parou. Parou colocou a mão na coxa e foi para o meio fio. Era o fim daquele marcador de ritmo, era o fim do balão vermelho.
Nessa hora fiquei na dúvida se tinha corrido os 2 últimos km tão bem quanto eu pensava ou se o marcador de ritmo já estaria em um ritmo mais lento devido as dores. Com essa incerteza mas cheio de disposição e a apenas 2,5 km do final decidi fazer a única alternativa que passava pela minha cabeça: Acelerar o máximo até o final.
E por surpreendente que possa ser, foi fácil esse sprit final. Ainda que as pernas já mostrassem algum cansaço conseguia acelerar como se estivesse no começo da corrida. Voltou a chover. Claro: correr na Holanda sem chuva não é correr na Holanda. A chuva era gelada e revigorante. E com essa chuvinha e acelerando no final completei a meia maratona em 1:32:49.
Essa foi uma prova em que a empolgação foi crescendo com a prova. O clima, tanto meteorológico quanto local, ajudou bastante e no fim, mesmo sem muitas pretenções iniciais acabei com um dos melhores tempos que já fiz. E isso sem muitos treinos de ritmo ou velocidade nos últimos 2 meses. Talvez essa seja uma boa técnica para as próximas corridas: começar confortável e ir adaptando o ritmo conforme a prova. O importante é que uma prova que se iniciou sem muitas ambições acabou se tornando uma das melhores provas dos últimos anos.
Mais uma para a conta.
Até a próxima
Comentários