Todo verão é a mesma história. Temperaturas muito altas,
poucas provas, falta de estímulo ao treino. Isso tem sido a constante desde que
vim para o Qatar. A forma de contornar a situação sempre é descrita aqui: Usar
a esteira para manter o condicionamento, e na maioria das vezes, usar treinos
menores e de maior intensidade ( como o RLRF) para reduzir o tempo de
treinamento ( Leia-se diminuir o tempo que tem que ficar na esteira).
Porém, no final do verão passado decidi que este ano(2017)
seria diferente: Não iria usar a esteira.
Alguém pode perguntar: Mas como que você vai treinar então? Na minha
cabeça, funciona assim: O verão é quente. Ninguém está discutindo isso.
Entretanto, existem dias realmente quentes, com temperaturas passando dos 45
graus e outros com temperatura na cas dos 40C mas com umidade de 90%. Ambos são
ruins sendo que os dias úmidos são ainda pior. Felizmente esses dias são poucos
durante o verão.
Assim, decidi que nesses dias com temperatura infernal, eu
não correria. Nos outros dias ( que ainda são muito quentes) eu correria porém
sempre treinos de rodagem e curtos, não passando de 50 minutos. O restante dos
treinos ( longos intervalados e mais rodagem) seriam feitos nos pernoites.
Claro que para esse plano funcionar eu dependeria um pouco da qualidade dos
pernoites.
Tracei uma meta que se me lembro vagamente ser igual a meta
do ano passado: Atingir 100 KM no mês. Não
é muito, mas é o suficiente para me manter condicional ( e estimulado).
Consultei o caléndario do Garmin do ano passado para ver quando eu tinha
abandonado a rua e ido para esteira e percebi que até o final de maio eu ainda
treinava na rua, sendo que já tinha feito uns 2 ou 3 treinos na esteira. Então
os meses de maior calor seriam entre junho e setembro.
Em junho consegui treinar muito bem. O Garmin registrou
169KM no mês ( mais que a media que é de
150KM) e 10 treinos em Doha. A descrição de alguns treinos, mostra o qual
impressionado eu estava em treinar nesta temperatura. Os treinos
denominados “Doha – 41C” , “Doha – Feels
like 43,9C” , Doha temperature 45C” demostram essa impressão.
Já em julho foram 130KM com 6 treinos em Doha. No final
deste mês tive ferias e fui para Porto Alegre, o que ajudou um pouco a manter
os treinos. Essa foi outra mudança ocorrida
neste ano: Nunca havia tirado férias entre junho e agosto. A explicação era que
por serem férias escolares, todos os voos e hotéis ficam mais cheios e mais
caros e não via necessidade de estar de férias nesta época. Acontece que
comecei a notar que o cansaço causado pelo calor é algo cumulativo. Então ter
uns dias “livre de calor” ajuda o lado psicológico do calor. E realmente
ajudou.
Agosto foi um mês que passou voando pois quando acabaram
minhas férias por volta do dia 10, voltei para Doha e saí em uma sequência de voos um atrás do outro. Ainda assim consegui correr
115 KM e fazer 2 treinos em Doha. Neste mês ainda que o objetivo dos 100km
tenha sido alcançado, a grande
dificuldade tanto em Doha quanto nos pernoites foi o fuso horário pois não tive
muito tempo para compensar o fuso da volta do Brasil.
O que posso dizer sobre essa experiência de não esteira até
agora? Tem valido a pena. Correr com calor extremo tem sido um grande trabalho
do ponto de vista psicológico. E não são tantos treinos assim no calor. O
desgaste destes treinos é muito grande e por isso quando não se está motivado, fica muito difícil sair
para treinar pois sabe-se que o sofrimento vai ser grande.
Ainda é cedo para cantar vitória pois setembro está só
começando, mas até agora consegui atingir ( e ultrapassar) a meta dos 100km, o
corpo está aprendendo a se comportar e se conservar em situações extremas e o
psicológico vai aprendendo a redefinir limites. Apesar de não serem treinos
prazerosos devido ao calor são aprendizados tanto para o corpo como para a
mente.
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