Pular para o conteúdo principal

Rock n'Roll Marathon - Washington DC




        

Estava pesquisando o blog e notei que não tinha publicado o texto sobre a maratona de Washington. Erro quase inperdoável, que está sendo concertado agora....


Mais um sábado de manhã e lá estou pronto para mais uma largada.
Desta vez porém o desafio é maior: A Rock n’ Roll Marathon de Washington DC esperava por
mim.

Vou contar para vocês qual é um dos momentos mais difícil da maratona: Alinhar na largada. O
corpo não aquecido, o resto de sono, a temperatura beirando zero graus. Nada disso é tão
desanimador como o pensamento de ter 42195 metros a serem percorridos. Porém estava
atrás de um desafio e como a meia maratona não se caracteriza como desafio ( para se ter
uma ideia, durante o treino da maratona, corri a distância da meia (21km) ou mais 8 vezes em
3 meses) sobrou a maratona.

A largada acontece às 7 da manhã na Constitution Ave. Apesar do frio, faz um belo nascer do
dia na capital americana. A ausência de vento também ajuda. Correr maratona requer
planejamento. O meu é tão simples que beira a ingenuidade: Correr 2 a 3 km em ritmo de
aquecimento, depois disso manter um ritmo forte até a metade da prova pelo ao menos (
apesar de acreditar ser possível manter esse ritmo forte até o km 30) e depois completar a
distância restante com o que tiver sobrado de perna e fôlego. Quer dizer, correr o melhor que
puder por quanto tempo puder e no final ver o que sobra. Escrevendo aqui isso parece bem
mais ingênuo do que parecia na minha cabeça. Mas esse era o meu plano.

Os primeiros 5 km passam tão rápido que nem sinto. O frio, a tensão da largada, a
preocupação em não começar muito rápido, as bandas de música. Tudo contribui para um
início de prova perfeito. O nascer do sol com o Licoln Memorial no fundo é espetacular. Vou
aumentando o ritmo e seguindo meu plano. Passando o km 6 vou beirando o Potomac River. O
corpo começa a aquecer e começo a achar aquela temperatura de 2 ou 3 graus perfeita.
Um pouco antes do km 10 tem uma subida. A desgraçada além de íngreme é longa, com uns
500 metros ou mais. Um grupo de estudantes acenam bandeiras americanas nesta subida e eu
tento manter o ritmo. Chego no topo da ladeira e passo a marca dos 10 km em 46:06 minutos,
exatamente o programado. Porém, durante a subida, sinto uma fisgada na panturrilha
esquerda.

Opa! 10 km e algum problema físico? Não é normal nem esperado. E isso aqui é uma
maratona, ou seja tem muita prova pela frente. Reduzo levemente o ritmo para analisar o
problema. A descida à frente ajuda. Sigo assim por uns 4 km e chego ao meu diagnóstico:
câimbra. Ainda esta leve mas está ali. Mantenho o mesmo ritmo pois está confortável. Vou
administrando a câimbra pois sei que se o músculo “ travar” é simplesmente fim de prova.

Até o km 17 está tudo bem dentro do possível. O ritmo está constante e a câimbra não diminui
mas também não aumenta. Então começo a sentir outra fisgada, desta vez na panturrilha
direita. Eu muito raramente tenho câimbras por isso é difícil entender porque isso está
acontecendo. Reduzo um pouco mais ritmo e penso que não chegou nem na metade. Não é o
melhor dos pensamentos para se ter em uma maratona. Mas treino é treino é jogo é jogo. Isso
aqui é o jogo. Vou correr o quanto puder pelo tempo que for possível. Se não der para terminar,

vou sair com o sentimento que fiz o melhor que eu poderia ter feito hoje. E pensando assim
continuo correndo.

Passo a marca da meia maratona em 1:40 aproximadamente 5 minutos mais lento que o
previsto. Não é bom, mas também não é ruim. Aqui é uma área bem residencial à leste de
Washington. Com o percurso relativamente plano, vou alongando um pouco as passadas e
assim as câimbras, por serem na panturrilha, aliviam um pouco. Nos pontos de água, caminho
enquanto bebo água para reduzir as dores.

Entre o km 24 e o 27 a situação piora. O percurso passa agora por várias subidas e descidas,
como uma ponte e um viaduto. O problema é que apesar da pequena inclinação, eu não
consigo alongar as passadas nas subidas. Consequentemente as dores aumentam na subida.
Para complicar mais um pouco a câimbra começa a “ passear” pela perna: sobe para a coxa e
desce até o calcanhar. Não é uma dor insuportável, mas sinto que os músculos estão
começando a fadigar. E tem mais uns 16 ou 17 km pela frente. A empolgação das bandas de
música e dos espectadores ajudam a animar um pouco.

No km 30 passamos por outro rio, o Anascotia River, um afluente do Potomac, e entramos no
espetacular Anacostia Park. Com o terreno plano e um belo visual, volto a alongar as passadas
e corro uns 2 ou 3 km de forma inacreditável. Não foram meus km mais rápidos porém foram
os km que me senti melhor na prova. Pelos meus cálculos por volta do km 32 à 34 começaria a
sentir um desgaste muscular. Porém como estou correndo aquém da minha capacidade por
causa das câimbras, não sinto tal fadiga. Dou uma risada e penso “ quem diria que eu poderia
tirar algo positivo destas câimbras “ Maratona é aprender a lidar com o pior e o melhor das
situações. Mas ainda faltam pouco menos de 10 km. E há luz no fim do túnel
.
Faltando 8 km, seguimos pelo Fort Dupont Park. É um lugar belíssimo. Porém é uma longa
subida que não consigo enxergar o final por causa das curvas. E as panturrilhas reclamam. A
subida tem mais de 1 km e o psicológico fica abalado por não conseguir ver quando acaba.
Começo a achar que aquela luz no fim do túnel deve ser um trem. Mas penso também que
quando chegar no topo deve ser só descida até chegar a glória. Chego no topo e a esperada
descida está lá. Desço mas antes que eu possa me animar vejo outra subida na frente. E lá vão
as panturrilhas chorar novamente.

Depois de 34km, qualquer quebra mola vira ladeira. Isso em condições normais. Com as
câimbras, isso fica um pouco pior pois além das dores aumentarem por não conseguir alongar,
ainda tem o fator psicológico. Acreditar que é possível continuar, que as dores vão passar, que
é a última ladeira,passa a ser muito difícil. Mas de alguma forma eu acredito e continuo na
corrida. Aqui eu não sei mais como era a paisagem, se tinha gente na rua ou qual era a
sensação de temperatura. Eu só penso em me concentrar para chegar.

No km 38, um dos momentos mais duros da prova: Vejo um corredor uns 300 metros na minha
frente deitado no chão e um policial fazendo alongamento nas pernas. Câimbras. Não é a
melhor cena para quem está sofrendo das mesmas desde o km 10. Tento não me surpreender
com a situação é sigo em frente. Logo após o km 40 uma curva a direita e........ outra ladeira.
Vejo a ladeira e começo a rir. Não sei o motivo da risada, mas quando eu penso que tudo que

eu não preciso é uma inclinação eis que ela aparece na minha frente. Sigo em frente e agora já
consigo ver o RF Kennedy Memorial Stadium, local da chegada. Isso da uma injeção de ânimo
e esperança. Está quase lá. Mas quase não é lá. Falta meia milha (800metros) e é claro que a
chegada tem que ser em subida. Chego no estádio e apesar da animação dos espectadores
não tenho pernas para acelerar.

O que vou contar agora vocês não vão acreditar. Pelo menos se me contassem eu não
acreditaria. Mas aconteceu comigo.42 km completos. Faltam míseros 195 metros para acabar a
prova. Meus músculos da coxa começam a travar de uma forma que quase penso em parar.
Sinceramente não sei se mentalmente relaxei ou se os músculos finalmente se renderam mas
a verdade é que foram 195 metros extremamente difíceis. Mas vencido esses metros estava
completa a Maratona de Washington em 3:29:40.

Fiz minha primeira ( e única até então) maratona em Berlin 2005. O tempo foi de 4:00:17.
Passei todos esses anos engasgado com esses 18 segundos que não permitiram tornar me o
que os corredores chamam de sub4. Agora 13 anos mais experiente, mais de 20 meia
maratonas e muitos km de treino depois, volto a correr uma maratona e consigo não apenas
abaixar o meu tempo em mais de 30 minutos como ainda consigo um “ título” amplamente
perseguido por corredores de sub3:30.

Vários corredores dizem que a maratona é uma prova de 10 km com um aquecimento de
32km. Para mim,foi uma prova de 10 km de corrida e 32 km de gerenciamento de câimbras. Foi
duro principalmente do ponto de vista psicológico. Mas é exatamente para isso que se treina:
Para administrar os problemas quando eles aparecerem. Terminei com a decepção de saber
que pelo que eu tinha treinado a prova poderia ter sido muito melhor. Por outro lado, senti
orgulho de ter gerenciado uma situação desfavorável por tanto tempo. No fim das contas gostei
muito do resultado e acho que vai levar bem menos de 13 anos para a próxima ( não conta pra
ninguém mas eu acho que vai ser ano vem). Enquanto não invento outra corrida sigo treinando
e me divertindo por aí. Até a próxima então.

Comentários

Elisa disse…


Este é meu filho! Não desiste nunca, mesmo quando a situação é das piores e as perspectivas não sejam animadoras. Parabéns, sub4!
Elisa disse…


Nanhuma nova postagem após a da Maratona? Está ficando preguiçoso? (brincadeirinha...).
Keep running!

Postagens mais visitadas deste blog

Que Preguiça

                                                                                                      Todo fim de ano é a mesma rotina: escolhe prova para correr, começa o treinamento, aumenta o volume de treino, depois aumenta a velocidade, passa pela fase de polimento até chegar na prova alvo do ano. Com uma semana de férias em março, o ciclo de treinamento começou no final de dezembro. Desta vez escolhi usar a mesma planilha que usei em Osaka no ano passado, que tinha comprado na Internet por 10 dólares. É bem simples mas para o tempo pretendido da para o gasto. Mas o problema não é a prova, ou a planilha: o problema é o treino. Essa planilha tem algo como 55 treinos em 12 semanas. No ano passado perdi apenas 2 desses trein...

Mexico Mexico

                                                                                                                                                     Este é outro daqueles textos que deveriam ter sido escrito anos atrás, afinal este é exatamente o tipo de texto pelo qual este blog existe. A primeira vez que fui à Cidade do Mexico foi em 2006, ainda na Varig. Foi apenas um voo e não pensei em correr por lá pois na época ainda não tinha essa ideia de toda vez que vou para um lugar novo querer carimbar uma nova conquista com um treino, nem que seja curta. Fast forward para o ano de 2016. Volto ao México mas não vou para ru...

A Tal Resiliência

                          Muito falada, muito badalada, mas o que é realmente essa resiliência? Na definição pura e simples, significa ter a capacidade de se recuperar depois de uma adversidade. Em outras palavras, sair da zona de conforto e se adaptar. A resiliência pode aparecer em diversas situações ao longo da vida. Mas por se tratar de um blog de corrida, vou usar 2 exemplos meus na corrida. Meia maratona de Campinas. Já tem um texto aqui falando dela. Mas foi justamente escrevendo aquele texto que tive a ideia de fazer este. Após a meia maratona, tive um voo para Bogotá. Após um pequeno cochilo lá fui eu para o parque metropolitano Simon Bolívar. Uma rodagem de 9 KM com o ritmo bem tranquilo de 5:47 min/ km. Uma distância que percorro normalmente com um pace até abaixo do normal. Mas então, o que teve essa corrida de tão especial? O fato de ter corrido uma meia maratona no dia anterior e descansado pouco após...