Resgatando
uma expressão muito usada no Rio de Janeiro quando eu era mais novo : “Dei
mole!” Deixa eu explicar melhor. Tinha um voo desses cargueiros longos. 12
dias. Em um voo desses deveria levar o carredor do Garmin certo? Certo, mas não
levei. Pior o relógio nem totalmente carregado estava pois tinha feito um
treino de rodagem e um longo de 24 km em Doha e não havia recarregado. Ao sair
para a minha primeira corrida em Luxemburgo já tinha relativa certeza que a
bateria não iria durar o voo todo.
Ainda
consegui fazer um segundo treino em Luxemburgo e um treino de tiro em São Paulo.
Em Buenos Aires fui a uma loja da Garmin na esperança de encontrar um
carregador. Não tinham, só sob encomenda.Já imaginando o fim da bateria
eminente fui para o longo de 28KM. A bateria até que durou bem e terminou
exatamente no KM 26. Completei estes 2 km do longão sem maiores problemas. Mas
ainda tinha muito voo pela frente. Tudo o que me restava era correr pela
sensação de esforço.
O primeiro
treino era em Quito. Muito desafiante pois além de nunca ter ido lá antes, não
sabia exatamente como o corpo iria se comportar na altitude de 8000 ft. Já
tinha programado que seria uma rodagem
justamente em função da altitude. Com poucas opções de percurso, escolhi
uma rodovia pouco movimentada e com um amplo acostamento. Consultei o Footpath
para ter uma ideia de distância. Peguei o meu timex com cronomêtro simples e
fui correr.
A sensação
inicial de se correr sem GPS é similar a se estar pelado. É tanto tempo usando
tal tecnologia, ainda que eu tenha como hábito não olhar para a tela
frequentemente, que parece estar faltando alguma coisa e que essa coisa é importante.
Depois de um tempo correndo e sem olhar para o relógio pensei: “ Quanto será
que eu corri até agora? Vou olhar o tempo, mas antes vou tentar adivinhar a
quanto tempo esto corredo. Acho que são uns 12 minutos”. Olho para o cronomêtro e vejo o tempo de
12:14. A noção de tempo está boa. Muitas vezes uso essa mesma técnica com o
GPS. Quando estou correndo, não consulto a tela mas quando decido fazer, penso
em que pace eu acho que corri na média até aqui. A dificuldade aqui era a
novidade do percurso e a altitude. Continuo meu treino e conforme programado
após 21 minutos começo a retornar. Chego no ponto de partida com pouco menos de
42 minutos o que significa que o ritmo foi bem constante sendo um pouco mais
rápido na volta. Corro mais alguns minutos e acabo aos 46. Fico bem satisfeito
com não ter sentido a altitude durante o treino. Sinal de bom preparo, pelo ao
menos para mim.
No dia
seguinte era Miami. Vários fatores podem alterar a sensação de um treino:
temperatura, umidade, horas dormidas, qualidade do sono e por aí vai. Cheguei
em Miami ao meio dia. Tinha acordado cedo e voado por quase 4 horas. Nada demais.
O tempo em Miami era o clássico “warm and humidy” e o treino era Tempo Run de 9
KM.
Saí para
correr no final da tarde; nem tão quente mas extremamente úmido. Como meu
aquecimento “padrão” leva 2 KM ou seja, pouco mais de 10 minutos, fiz o
seguinte: Corri 5 minutos de aquecimento. Nos 5 minutos seguintes 3 pequenos
tiros pegando uma referência: um poste de luz, um sinal de trânsito ou um
prédio a frente. Completado os 10 minutos, ritmo de Tempo Run. Esse treino é aquele com um ritmo
confortavelmente desconfortável e no meu nível de treinamento atual é algo em
torno de 4:30 min/km. Para correr 9 KM neste ritmo seriam necessários 40:30.
Como já
havia corrido 10 minutos, comecei a correr no ritmo e decidi manter esse ritmo
até completar 50 minutos. Depois outros 5 minutos de desaquecimento e o treino
estava completo. Posso ter corrido um pouco mais do que 9 KM. Ou talvez um
pouco menos. Nunca vou saber. Mas foram corridos 40 minutos corridos no ritmo
de quase desconforto. E esse era o objetivo do treino.
E esses
foram os treinos sem GPS baseados na sensação de esforço. Depois de passada a
sensação inicial de nudez, a sensação seguinte é de liberdade. Liberdade de
saber que está fazendo o seu melhor naquele treino sem ser “julgado”pelo GPS se
está rápido o suficiente ou lento o suficiente. Liberdade de correr
simplesmente pelo prazer de correr e não pelo registro do GPS. Liberdade de
manter o ritmo que eu nunca vou saber qual foi, mas era o ritmo correto para
ser mantido naquele momento.
Antes que
achem que eu depois desse discurso vou jogar meu GPS fora (NÃO!! Não vou, adoro ele!!) continuo com a opinião
que o GPS é uma ferramenta espetacular no auxílio dos treinos e análise de
evolução. Além é claro de manter uma quantidade de dados como mapa, horário,
temperatura, batimento cardíaco, etc... fantástico sobre todos os treinos. Mas
devo admitir que um ou outro treino, principalmente aonde se conhece o percurso
sem nenhum tipo de controle é completamente válido e libertador.
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