
“Por que
raios fui me meter numa roubada dessas? De novo!!” esse é um pensamento
recorrente e quase inevitável ao alinhar na praça de Espanha para largada de
mais uma maratona. O local desta vez, é Barcelona. Mas essas ideias desaparecem junto com a
contagem regressiva para a largada. 42.195 metros pela frente . Vamos lá. Mais
uma vez!!
Os 5
primeiros km servem para aquecer. Depois do segundo km começo a tentar
encontrar o ritmo da prova, o que não é uma tarefa fácil. Um pequeno incomodo
aparece na canela direita. Provavelmente por ter acelerado antes de estar
totalmente aquecido. Tudo bem, isso já aconteceu em alguns treinos. E afinal de
contas é para isso que se treina: Tentar minimizar os percalços do caminho. Já
sei que fazer: manter o ritmo que depois
de algum tempo passa. Menos de 2 km depois já nem lembro mais da dor. O
importante na maratona é tentar manter o corpo equilibrado pelo maior tempo
possível. So far so good.
Os 8 km iniciais
são pela parte oeste da cidade. Neste ponto, a corrida praticamente volta até a
praça de Espanha e entra na larga Gran Via. Está é uma grande avenida com uma reta que parece interminavél. Bastante gente
na rua incentiva, faz barulho, toca algum instrumento musical. É uma festa. E o
mais impressionante é que é assim por quase todo o percurso. Estou me sentindo
extremamente bem; o incentivo ajuda e a temperatura por volta do seus 16 graus
também. Aproveito o bom momento para acelerar um pouco o passo e cruzo a marca
de 10 km em 47:54.
Neste
momento a corrida entra pelo centro de Barcelona e passa por pontos turisticos
como a Casa Batlló e a famosa e inacabada igreja Sagrada Família, por volta do
km 13. Consigo um tempo para apreciar a paisagem mas sem perder o meu ritmo.
Outra grande vantagem desta parte do percurso é ter bastante sombra porque é
uma área predominantemente residencial.
Entretanto, no km 15 entramos na Av. Meridiana que é um acesso a uma
estrada que sai à nordeste de Barcelona. Esse na minha opinião é um dos pontos
mais desafiante da prova, pois além de ser uma larga avenida sem muitos
atrativos e pouca sombra, seguimos nesta reta até o km 18 quando se faz um
retorno e volta, ou seja você corre numa reta interminável e vê os corredores
que estão a sua frente já retornando, e você sabe que vai ter que correr tudo
aquilo de volta, mas não sabe quando.
Ainda
assim, venho correndo com um ritmo absurdamente constante. O retorno no km 18
da avenida Meridiana é excelente, pois literalmente se começa a voltar e isso é
muito bom psicologicamente. Apesar da monotonia neste trecho, consigo manter o
foco e passo a marca da meia maratona em 1:39:48. Estou exatamente dentro do
meu tempo proposto. Para ser mais preciso estou 45 segundos abaixo do tempo. E
não estou nada cansado. Mas maratona é maratona.
Logo após
os 21 KM cruzo a Pont Calatrava ( uma espécie de ponte estaiada metido a besta)
e a prova volta para a Gran Via mas em um trecho bem a Este da cidade. Neste
ponto apesar do estímulo vindo de torcedores na rua, o calor começa a apertar.
A largada, 8:30 da manhã, é extremamente tarde e aqueles agradáveis 16 graus já
se transformam neste momento em 22. E recém passou da metade. Mas Barcelona é
bela. Vou me distraindo com a paisagem, mantendo meu ritmo e jogando um pouco
de água na cabeça eventualmente para refrescar. Meu ritmo não apenas se mantém
como até melhora. E se está confortável assim, porque mudar? E nesta
brincadeira já se foram 25 km.
Depois do
km 25, a prova entra na Diagonal, uma larga avenida que corta Barcelona de noroeste
a sudeste. Este trecho , a prova vai por esta avenida até a Torre Glòries e
volta pela própria Diagonal, fazendo deste trecho um dos mais desafiadores da
prova, assim como foi a Av. Meridiana. A vantagem é que aqui, tem muita banda
de música, cartazes e gente na rua, o que mininiza a dificuldade do percurso. Nesta
altura da prova o calor aperta mais. Ainda assim, passo o km 30 extremamente
bem em 2:21:45 e mantendo o meu ritmo.
Depois do
km 30, passo pelo fórum e corro pela ronda Litoral, indo em direção a
Barceloneta. É uma área bem agradável a beira mar. Entretanto após o km 32 cada
kilometro começa a ficar mais comprido. No meio do KM 33 tem uma pequena subida
com não mais de 200 metros. Nesta subida caminho pela primeira vez na prova.
Volto a correr e tento me distrair com o percurso. Neste ponto se passa pelo
cassino e pela torre Mapfre. Apesar de perder um pouco de ritmo, principalmente
pela caminhada que deve ter durado um minuto, passo o km 35 ainda dentro do
tempo previsto.
KM 35. Aqui
começa a prova. Já são 2:46 correndo, a temperatura deve rondar pelo seus 24/
25 graus e a prova já não parece tão divertida assim. Quer piorar? Tá bom
então. Começa a aparecer uma cãimbra no pé direito. Não é forte, mas suficiente
para quebrar meu ritmo. Passo pelo Parc de la Ciutadella e sigo em direção ao
Arc de Triomf. Os km demoram cada vez para passar. A cãimbra piora um pouco e
começo a pisar torto para evitar a dor no pé direito. Resultado. Começa
aparecer dor no joelho esquerdo. Caminho um pouco para ver se melhora. Além de
não melhorar percebo que um desaquecimento das pernas neste ponto significaria
fim da corrida. Sendo assim volto acorrer.
No KM 37
corro pela Plaça Catalunya. Meu hotel fica exatamente na frente praça e ao
olhar para ele de canto de olho. A vontade é parar ali mesmo tomar um banho e
pedir uma cerveja. Mas isso aqui é maratona!! E faltam “só” 5 km. Resisto a
tentação e continuo correndo. Passo pela Catedral e quando estou quase chegando
no monumento a Colón que é a marca do km 39, vem uma forte cãimbra no pé. Desta
vez o esquerdo.
Passo o km
39 e tenho que mudar muito o passo por causa das cãimbras. Ainda consigo
correr, ainda que tenha reduzido o ritmo. Tenho quase certeza que esqueceram de
colocar a placa de 40KM, pois já estou correndo a muito tempo e nem sinal dela.
Depois do que para mim seriam uns 2 km, finalmente aparece a desgraçada da
placa.
40 km
completados. A partir daqui é uma guerra psicológica: o corpo implorando para
parar, a mente querendo continuar e você tendo que administrar. As cãimbras
invadem as duas coxas. Meu pé esquerdo já está dormente. Ainda faltam 2 km para
a chegada. Apesar do cenário de guerra, corri muito bem até o km 35, e por isso
sei que tenho condições de bater me recorde ( Washington 2018 – 3:29:32). Mas
para isso tenho que continuar correndo. Decido correr esses 2 km em um ritmo
bem confortável, mas continuar correndo. Os torcedores invadem a rua e fazem um
barulho ensurdecedor. Vou fazendo força, mas realmente está difícil. Mas quem
disse que maratona tinha que ser fácil?
Apesar de estar em um ritmo confortável ainda assim tenho que caminhar
por vezes.
Passo a
placa do km 41 e vejo o shopping da Plaza de España, que no passado era uma
arena de touaradas. Sei que ao contornar
a arena estarei na Plaza de España e consequentemente na chegada. Tento
acelerar mas fica só na tentativa mesmo. As cãimbras avançam para as
panturilhas. Tento controlar a
respiração, manter a concentração e me manter correndo o mais rápido que posso nessas
condições. Depois de 3:24:41 cruzo a linha de chegada! Está concluída a
Maratona de Barcelona.
No balanço
final Barcelona é uma prova extremamente organizada, em um percurso praticamente
plano. A largada poderia ser no mínimo uma hora e meia mais cedo. O calor foi
desgastante principalmente próximo do final da prova. Corri de maneira constante
até o km 35, conseguindo manter o ritmo previsto e ainda por cima me
divertindo. Mas maratona é uma prova de detalhes e no final a prova cobrou o
seu preço: os últimos km foram sacrificantes. Pelas minhas previsões, se eu corresse
uma prova perfeita, completaria em 3:21. Consegui manter o ritmo para esse
tempo até o km 35, onde o calor combinado com as cãimbras fizeram eu perder um
pouco o ritmo. Ainda assim consegui bater meu recorde pessoal por 5 minutos. E
isso é muito tempo!! No fim terminei a prova feliz e com a certeza de ter
conquistado Barcelona.
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