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O treinamento para a Meia de Berlin ia bem. Muito bem. Realmente
gostei da metodologia do 80/20. Mas isso é assunto para outro post. O fato é
que o mundo virou de cabeça para baixo. Tudo começou com uma vírus na China.
Aparentemente transmitido por morcego para um outro animal e finalmente para
humanos. Era o corona vírus aparecendo.
As primeiras informações era de ser um vírus altamente contagioso
porém limitado a China e países asiáticos. O vírus teria aparecido em
novembro entretanto o governo chinês escondeu a informação até janeiro ( após
o ano novo chinês). Quando divulgado, países na Ásia começaram a tomar
precauções de restringir lugares com alta aglomeração de pessoas.
Em fevereiro, a maratona de Tóquio foi cancelada para os corredores
amadores, participando apenas os atletas de elite, principalmente japoneses,
buscando índice para as olimpíadas de Tóquio, marcada para julho. Era um
sinal de alerta.
Eu continuava meu treinamento pois acreditava se tratar de um surto na
Ásia, assim como aconteceu com a SARS alguns anos atrás. Nada que fosse
afetar o mundo ocidental. Mas já começava a pensar na possibilidade de um
cancelamento exatamente por ser um evento com grande densidade demográfica (
eram 34.000 vagas e as inscrições esgotadas).
Na primeira semana de março, a organização mundial de saúde elevou o
nível do vírus a pandemia. Isto significava que já tinha se espalhado para
fora da China e estava fora de controle saber a quantidade de pessoas
infectadas. Apesar das possibilidades remotas da corrida acontecer, continuei
treinando, afinal faltava exatamente 1 mês para a corrida. No dia 12 de março
a organização enviou um e-mail oficializando o cancelamento.
Ainda relutei naquela semana. Continuei os treinos pois aquela seria a
última semana com “ alta intensidade” de treinos. As 2 semanas seguintes
seriam o tapering onde o volume e a intensidade são reduzidos para estar
pronto para o dia da prova. Apesar de ter feito os treinos bem, confesso que
ir para um treino de ritmo sem objetivo é bastante desestimulante.
Essa situação que parecia ruim, piorou bastante: Quase todos os países
do mundo fecharam suas fronteiras, praticamente todo o comércio e
restaurantes estão fechados e muitos países ainda adotaram o toque de
recolher, onde as pessoas só podem sair de casa para comprar comida ou ir a
farmácia.Sair para correr nesses países, nem pensar. É um verdadeiro caos mundial.
O Qatar ainda não tem toque de recolher. Eu ainda faço uns 3 treinos
por semana.( só rodagem). Um fato curioso é que as pessoas deveriam ficar em
casa para evitar a socialização e consequentemente o espalhamento do vírus.
Porém com todos os escritórios fechados, com as pessoas mais tempo em casa e
as academias dos prédios fechadas o que se vê é um número maior do que nunca
de pessoas caminhando e correndo pelas ruas da Perl.
Claro que não fiquei feliz com o cancelamento da prova. Afinal de
contas, o treinamento foi muito bom ( spoiler alert!!) e pelos tempos dos
treinos de tempo run( 4:10 - 4:20)acredito que tinha boas chances de bater
meu RP. Mas o cancelamento da prova se tornou o menor dos problemas. O mundo
praticamente parou. A aviação mundial teve uma redução de 90% e eu continuo
voando quase que essencialmente por causa dos voos cargueiros. Atualmente
temos restrição de mobilidade na grande maioria dos países do mundo e algumas
vezes dificuldade até de conseguir alguma entrega de comida.
O meu ano de corrida acabaria aqui de qualquer forma pois após a
Berlin, teria a Wings for Life em maio ( também já cancelada). Entretanto
sempre corro esta prova sem objetivo de distância, apenas para “ fechar o
ano” ( É o meu equivalente a São Silvestre) já que o verão se aproxima e um
treinamento consistente se torna impossível. Eu aproveitava está época para
correr durante os pernoites. Até isto parece que vai ser difícil de fazer. E
o pior, não sabemos até quando toda esse bloqueio vai durar.
É um ano duro para todos: Pessoas, empresas, negócios etc... Foi
tirado algo que todas as pessoas consideravam essencial: o direito de ir e
vir. O que se pode fazer agora é fazer pequenos treinos ( nos lugares em que
ainda forem permitidos), fazer treinos de força em casa para manter o
condicionamento físico e trabalhar a parte mental, lendo, escrevendo e
buscando inspiração. A melhor palavra para resumir como passar essa fase é
resiliência; Vamos sofrer. Mas vamos aprender com este sofrimento, não vamos
deixar o desânimo ganhar força e vamos sair desta mais forte do que entramos.

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