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A Paixão pela Corrida

    

 



Ao passar pela porta giratória, um vento frio encontra o meu rosto. A previsão do tempo consultada minutos antes estava correta : -3 graus nesta manhã de Black Friday em Chicago. Mas não estou indo atrás das promissoras ofertas da data. É dia de mais uma corridinha matinal.
Me visto com todo meu aparato de frio: gorro, uma camiseta de dry fit que foi usada poucas horas antes na academia, camisa de manga comprida, luvas com fingers warmers ( talvez o item mais essencial) e shorts. Sim apesar da baixa temperatura nunca tive ( e nem pretendo ter) aquelas calças de dry fit que mesmo as masculinas parecem femininas e te deixam igual uma picanha embalada a vácuo.
O percurso escolhido não é a trilha pela qual corri bastante durante o último verão e outono. Resolvo correr pela área residencial de O’ Hare. Desta forma, caso fique frio em algum ponto do percurso, posso voltar diretamente para um banho quente no hotel.
O Garmin encontra rapidamente os satélites e começo minha corrida sem ter que esperar. O plano é correr pelo menos 8 km. Se o frio for pior do que parece 40 minutos já estaria bom. Os primeiros metros são difíceis, com um ar gelado entrando pelo short e pelo gorro. É aquele momento de pensar qual o motivo de estar aqui.
A resposta é exatamente o título deste texto: paixão. A corrida sempre tem seus desafios. Seja o clima, a altimetria, horários, disposição de correr….. são tantas as variáveis que é impossível saber qual a maior dificuldade. Entretanto, o prazer de vencer esses desafios, a sensação de dever comprido, o comprometimento com o exercício. Essas são algumas das recompensas encontradas ao final de um treino.
Neste treino estive pensando na minha evolução como corredor. Antigamente ( e não a muito tempo atrás) sair para correr em condições extremas como essa baixa temperatura, ou com chuva ( um adendo aqui: sempre gostei de correr com chuva. Entretanto, nunca gostei de iniciar um treino com chuva) ou mesmo em algum lugar com uma altimetria desfavorável era exclusividade dos treinamentos para provas.
Tendo uma prova marcada, montava os treinos da semana baseado na escala e tentava seguir o mais fielmente possível o plano. Neste caso, corri bastante embaixo de neve e mesmo após chegar de um voo de 15 horas.
Porém, neste novo mundo de pandemia e suas variantes as provas ainda estão em um ritmo lento e tímido. Apesar de algumas provas já estarem ocorrendo existe um outro problema: as restrições e a logística de se viajar. Atualmente é um tal PCR antes de embarcar, depois que chega, quarentena, mudança de regra que realmente é difícil planejar alguma viagem. Com isso, se torna impossível correr uma prova visto que em Doha não tem nenhuma agendada por enquanto.
Sem uma prova no horizonte eu deveria correr menos, pois não tenho um objetivo. Certo? Errado!!! Tenho corrido até mais do que antes e devo inclusive chegar aos 2000 km este ano pela terceira vez nos meus 18 anos de corredor ( mas isto é assunto para outro post). Minhas corridas tem sido mais regulares e mais longas do que antes. Mas a pergunta principal desta postagem: porque ?
Porque tenho tido prazer no simples fato de correr. Lógico que participar de um prova, ter um objetivo de tempo ou um lugar que se gostaria de ir para correr é muito legal. Mas sair para treinar uma rodagem simples, pensando na vida e se perder entre os quilômetros percorridos e as ideias que vem na mente também é muito divertido.
A distância é um caso a parte. Até pouco tempo, considerava qualquer treino acima de 10 km longo. Atualmente, por ter mais resistência e também mais cabeça para ficar vagando no tempo, tenho feito muitas vezes treinos de 11 ou 14 km como rodagens na semana. Dependendo da rotação da escala, já cheguei a correr 2 treinos de 15 km na mesma semana.
E este treino não foi diferente. Planejado para 8 km ou 40 minutos, acabei por correr pouco mais que 11 km em uma hora. Passado o frio inicial foi só ficar pensando na vida, criando este texto, não percebendo os km passarem. Alguns podem considerar esse aumento de treinamento como evolução na corrida. Eu prefiro entender como paixão : cada vez corro mais e mais gosto de correr.

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